Uns
amigos meus foram buscar o filho caçula no aeroporto. Ele voltava de uma
temporada de estudos nos Estados Unidos e era a primeira vez que tinha
ficado tanto tempo longe de casa. Um ano inteiro! A mãe dormiu mal com
a expectativa; o pai, como sempre, disfarçou bem, mas não parava de olhar
para o relógio. Felizmente o vôo não atrasou e, logo, o casal avistou,
ao longe, o rosto do garoto no corredor se dirigindo à multidão que estava
na área de desembarque.
Ao se aproximarem, tiveram uma surpresa: o rapagão de porte atlético,
jogador de vôlei do time do colégio, estava uns 20 kg mais gordo, resultado
de um ano se alimentando com hambúrgueres e purês de batata feitos por
sua "mãe americana". Mas não era só a comida caseira responsável pela
mudança. Conversa vai, conversa vem, ficou claro o que realmente havia
determinado esse ganho de peso: saudade. Inseguro em terra estranha, rodeado
de pessoas desconhecidas, quando batia a sensação de solidão e abandono
era principalmente nos sorvetes que o menino se apoiava. E olha que os
potes nos Estados Unidos são verdadeiros baldes! Não deu outra...
O delicioso consolo
Não tenho idéia se o rapaz já voltou à antiga forma - espero que sim.
Sei, contudo, que é bem comum as pessoas buscarem na comida a solução
de seus problemas emocionais. Eu também já tentei preencher assim o meu
vazio interior. Conheço muitos outros casos semelhantes, como o de uma
moça que vivia em regime, mas sempre mantinha uma grande caixa de bombons
guardada no armário. "Só para algum caso de emergência." Essa expressão
- emergência - incluía qualquer coisa que abalasse seu ânimo: um fora
de namorado, uma briga com o patrão, dúvidas existenciais... Nesses momentos,
não titubeava, dá-lhe chocolate!
Usar a comida como gratificação por alguma perda é algo que se aprende
desde a infância. "Come toda a salada que depois você ganha a sobremesa,
filhinho!" E, é claro, assim a criança interioriza que a salada (por mais
gostosa que esteja) não passa de um obstáculo que ela tem de ultrapassar
para chegar ao paraíso dos doces. Sem ninguém pegando no pé, com o tempo
eliminam-se as folhas do caminho e se vai direto para a recompensa.
"Quando tenho vontade repentina de fuçar a geladeira, paro
e me pergunto o que necessito de fato"
|
|
|
 |
| |
 |
A questão é que encher a boca e empanturrar o estômago não garante afeto
nem resolve problemas. Por isso, hoje, quando tenho vontade repentina
de fuçar a geladeira e os armários atrás de delícias, paro e me pergunto
como estou me sentindo e o que necessito de fato. Na maioria das vezes
tento alimentar primeiro o coração e aliviar as angústias de outra forma.
Então, melhoro o estado de espírito sem alterar minha silhueta.
P.S.: Quero aproveitar este espaço para comentar a pesquisa divulgada
recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
que aponta o problema da obesidade já suplantando o da desnutrição no
nosso país. Mesmo no Nordeste e nas classes menos favorecidas, o brasileiro
está saindo da triste categoria de desnutrido para cair em outra não menos
ruim: "mal nutrido". Por isso, o Ministério da Saúde está pensando em
maneiras de limitar a propaganda de guloseimas na televisão. A maior preocupação
é com as crianças: os programas infantis são bombardeados por todo tipo
de itens ricos em calorias, mas pobres em nutrientes. Embora algumas empresas
de alimentos e mesmo redes de restaurantes já estejam acordando para o
problema, não é fácil mudar comportamentos arraigados. Eu aplaudo a iniciativa
oficial: é preciso dar o primeiro passo, não é mesmo?
Lucilia Diniz é
autora do livro O Prazer de Viver Light, que ensina o método
usado por ela mesma para emagrecer 60 kg |
 |