De repente, a pessoa come tudo o que vê na frente. E isso passa a acontecer com certa freqüência. É a famosa alucinação por comida, que leva o nome acima. Veja, por meio das respostas do médico psiquiatra Cyro Masci*, de São Paulo, como ela surge, como pode atrapalhar sua dieta (ou tornar você obeso) e, enfim, quais os meios utilizados em busca da cura. Sim, porque ela tem cura!
O que é, exatamente, esta doença?
A compulsão alimentar é definida pela “ingestão, em um período limitado de tempo, de uma quantidade de alimentos definitivamente maior do que as pessoas consumiriam num período similar, sob circunstâncias similares, com sentimento de falta de controle durante o episódio”.
Como ela pode ser diagnosticada?
O critério requer a presença de:
1. Episódios recorrentes de “ataques de comer”. Devem acontecer pelo menos dois dias por semana, durante seis meses para caracterizar a doença;
2. Durante estes “ataques”, três dos sintomas abaixo devem estar presentes:
✔ engolir a comida, ou seja, muito mais rápido do que o normal;
✔ comer até se sentir desconfortavelmente empanturrado;
✔ ingerir grandes quantidades de alimento, mesmo sem fome;
✔ fazer a refeição sozinho, por vergonha da imensa quantidade que consome;
✔ sentir repulsa por si mesmo, depressão ou culpa após alimentar-se em excesso;
3. Ter, fundamentalmente o “sentimento de perda de controle”. A compulsão alimentar não surgeassociada ao uso regular de comportamentos compensatórios inadequados (por exemplo, purgação, jejuns e exercícios excessivos), e nem ocorre durante o curso de anorexia ou bulimia nervosas.
O transtorno ataca mais homens ou mulheres? De que faixa etária?
Na população em geral, até 4 em cada 100 pessoas é acometida pelo mal. Normalmente, o transtorno tem início no fim da adolescência, até por volta dos 20 anos, e com grande freqüência aparece logo após uma dieta para perda de peso. Estudos realizados em clínicas de emagrecimento pelo mundo afora indicam que entre 15 a 50 % das pessoas, numa média mundial de 30 %, possuem o distúrbio. As mulheres apresentam uma taxa uma vez e meia maior do que os homens (3 mulheres para cada 2 homens).
A compulsão alimentar, geralmente, é por doces?
Por qualquer alimento, mas é muito freqüente em mulheres o “ataque” a doces e/ou a chocolates. Uma possível causa por esta preferência é que ele aumenta a serotonina do cérebro, um neurotransmissor que está envolvido nos mecanismos de ansiedade, da depressão e do próprio transtorno alimentar.
Que outros problemas ela causa?
A maioria absoluta, em torno de 75 %, acaba se tornando obesa e carrega todas as doenças relacionadas ou causadas pelo excesso de peso como pressão arterial alta, aumento da gordura abdominal, aumento do “colesterol” ou diabetes. Por outro lado, vários estudos apontam maior incidência de sintomas depressivos em quem é portador do transtorno, chegando ao quadro de depressão clínica completa, que requer tratamento específico, em cerca de 50% dos casos.
Toda pessoa com este mal é obesa?
Ou é um círculo vicioso? Apesar do paciente se sentir culpado e envergonhado por sua falta de controle, ele NÃO exibe atitudes compensatórias como vômito, jejum ou exercícios físicos extenuantes, típicas dos pacientes com bulimia. Ele deve ter um histórico de fracassos em diversas dietas e tem depressão e obesidade.
O vício por comida é como por álcool ou algo parecido?
Se vamos considerar qualquer comportamento compulsivo, sem controle, como “vício”, a resposta é sim. Se observarmos mais de perto a origem do problema, veremos que é diferente.
É um problema psicológico, físico ou ambos?
Um engano comum, que só faz piorar o quadro, é pensar que a compulsão seja conseqüência de alguma complicação psicológica oculta, que o paciente tenha alguma dificuldade emocional escondida. Realmente ele pode ter estes problemas, mas provavelmente é conseqüência dos diversos fracassos em infindáveis dietas para redução de peso. É bem verdade que não é difícil confundir o que dá origem a que.
O que eles dizem quando perguntados?
Muitos comedores compulsivos relatam que esse mal é ativado por uma variação importante do humor como a depressão ou a ansiedade. Outros não conseguem identificar estes gatilhos com precisão, porém, falam de um sentimento inespecífico de tensão, que é aliviado pelo comer excessivo. Há, ainda, os que descrevem que, nos momentos de compulsão, tem sensações de torpor ou se sentem aéreos, como se saíssem um pouco de si mesmos. Uma grande parte dos indivíduos come durante o dia inteiro, sem planejar as refeições.
Porque esta doença se instala?
A origem do problema ainda é discutida nos meios científicos, provavelmente seja um misto de origem química cerebral, baixa de serotonina no cérebro, um certo tipo de comportamento (pacientes com o transtorno tendem a ter baixa auto-estima, são perfeccionistas, impulsivos e, em geral, pensam em termos de “tudo ou nada”, em outras palavras, total controle ou total descontrole) e influência sóciocultural. Esta última parece que teve início nas mudanças dos anos 60, com o aparecimento de dietas mal elaboradas ou como conseqüência da falta de uma pessoa que organize os horários de refeição (antes eram a mulheres, que não trabalhavam). Também começam a desaparecer o hábito de refeições feitas em família e os lanches no meio do dia. As longas horas de trabalho, o ritmo frenético das grandes cidades, o aumento da distância entre a residência e o local de trabalho, obrigando as pessoas a comer fora de casa, deve ter contribuído.
E tem cura? Em quanto tempo?
Quando o problema é localizado, o maior erro é continuar a fazer dietas e mais dietas de redução de peso, que só irão gerar mais frustração. Cada pessoa é diferente e não existe um tempo prédeterminado para o tratamento. No entanto, vale saber que o tratamento clássico é realizado com psicoterapia e medicamentos. E a forma que proporciona resultados mais sólidos é a da terapia cognitiva que, em cerca de 12 a 20 sessões, busca modificar padrões de pensamento distorcido. Especialmente ver o modo como a pessoa se auto-avalia, baseada em critérios de formato de corpo e peso, além da auto-estima, perfeccionismo, impulsividade, etc.
E a utilização de remédios?
O tratamento medicamentoso tradicional é realizado por psiquiatras com antidepressivos, inibidores seletivos de recaptação de serotonina, sendo a fluoxetina um dos mais empregados.
Sempre é necessário um tratamento multidisciplinar?
Pode não ser necessário, mas é bem mais eficaz.
Dr. Cyro Masci é médico Psiquiatra, de diversas sociedades médicas nacionais e internacionais, entre as quais: Academia Americana de Estresse Traumático. Foi Professor de Psiquiatria Médica da Faculdade de Médicina de Santos, SP).